A menina que queria ir à guerra VII

No ano que entrou para a escola de datilografia, outro fato marcou a vida da menina que queria ir à guerra. Ela estava na capital, com sua mãe, que havia ido a trabalho. A menina gostava da capital porque ali podia ir a uma banca de jornal comprar O Globo. Lá, em sua terra, ela o lia com dias de atraso.

Na capital sua mãe se hospedava próximo de bancas de jornais. Havia uma praça, onde podia conhecer e fazer amizade com outras pessoas de sua idade, da capital. Lugar que foi tornando-se bastante familiar, devido a tantas viagens acompanhando a mãe.

Alguns anos depois, já morando na capital paulista, mais parecia moça de capital. Adaptara facilmente, sem nenhum choque cultural e sem enfrentar nenhuma barreira social.       

Numa das muitas viagens à capital, pegou uma edição de O Globo e a  manchete era algo triste, o seqüestro do neto de um milionário no exterior: Seu avô era magnata do petróleo e, considerado em sua época o homem mais rico do mundo. Mesmo assim ele negou pagar o resgate e só mudou de idéia quando soube que uma orelha de seu neto havia sido enviada para um jornal.

A menina não entendia como pode alguém tirar um adolescente de sua família, abruptamente, para extrair dinheiro, em troca de sua liberdade. Na verdade, aquela notícia foi um choque. 

A partir deste episódio tomou consciência de que o mundo pode ser mau. Apesar de querer cobrir uma guerra, não tinha dimensão do quanto o homem podia ser tão ruim e egoísta. Aquele seqüestro serviu de parâmetro para a menina saber que há muitas guerras em muitos lugares. Provocando vítimas não somente em grande escala, mas em pequenas também. 

Leu e releu aquela reportagem por diversas vezes para entendê-la melhor. Foi a partir deste episódio que passou a ler as notícias de jornal no mínimo duas vezes. Cada matéria. Primeiro, ela lia no intuito de entender do que o assunto tratava. Uma vez que matava a curiosidade das informações, fazia uma segunda leitura, para observar como aquela notícia foi passada para o leitor. Ou seja, ela observava, prestando bem atenção no vocabulário, nos parágrafos, citações, fontes, enfim, na maneira que o jornalista descrevia o assunto.

Até hoje a jornalista acredita que aquela mania foi sua grande escola para aprender a escrever textos. Hoje, de vez em quando, pratica esse exercício, pois valeu muito como terceira lição rumo à sua carreira de jornalista. Se o leitor lembra, a primeira foi ler bastante, tudo o que caía em suas mãos; depois aprender a datilografar e em terceiro, ler e reler cada notícia, sob dois ângulos: tomar conhecimento do assunto e de que forma ele foi passado para o leitor.

Escrever com estilo é uma grande sacada. Pode fazer a diferença na carreira de uma pessoa, seja qual for a profissão que escolher. No jornalismo, então, é essencial.