A menina que queria ir à guerra IV
A menina que queria ir à guerra nunca gostou de ler ficção. Até hoje. Vai ver, por isso jamais leu Monteiro Lobato, Ziraldo e até Maurício de Sousa. Anos depois, adulta, em São Paulo, soube de Ruth Rocha, autora de literatura infantil. Não ouvira falar nela, até ser apresentada por uma amiga, Mara.
Aliás, nem de gibi gostava. Guarda até hoje o Manual do Peninha, publicado há algumas décadas. Foi seu primeiro livro sobre jornalismo. Peninha havia sido designado pelo Tio Patinhas, para ser repórter de seu jornal, A Patada.
Trinta anos após ter comprado o Manual do Peninha, tantas vezes o consultava. Numa linguagem bem acessível, explica tudo sobre jornalismo. Agora resolveu dar uma olhada. Em sua biblioteca, estava em meio a outros livros da área de comunicação. Releu que Tio Patinhas havia escolhido Peninha para repórter, porque o mesmo tinha algumas qualidades. Peninha era otimista, bem intencionado, topava qualquer parada, não se deixava abater diante das dificuldades, tinha um gênio extrovertido e, por ser cheio de iniciativa e imaginação, poderia fazer reportagens difíceis para o jornal.
Por algum motivo, guardou aquele manual. Quem sabe, para manter acesa a chama de ser jornalista um dia. Não dividia essas coisas com os amigos. Nem mesmo com Denise, a amiga de sala de aula, no colégio de freiras. Denise era, naquele tempo, a melhor amiga. Para andar de bicicleta e cometer outras aventuras no colégio, para desespero das freiras.
Na adolescência, perdeu a amiga. Que mudou com a família para outro estado. Nem deu tempo para dizer que tinha um sonho. Trinta anos depois, eis que encontra a amiga, pela internet. Havia casado, descasado, tinha filhos. Ao contrário da jornalista, que dedicou-se às suas realizações e compromissos profissionais.
Vinte anos após estrear profissionalmente na profissão que tanto queria, resolveu escrever suas memórias e experiências jornalísticas. Primeiro, para contribuir na escolha da profissão de crianças e adolescentes, ainda indecisos. Segundo, para contar que valeu a pena. Resolveu postar isso num blog.
Denise, então participou do blog. E comentou, baseado no que lera, que a menina que queria ir à guerra tinha muita personalidade e um mundo interior rico e particular e, que crianças assim, são hiperativas, no que a jornalista não concorda. Talvez tivesse sido uma criança ativa, mas isso ela explicará em outro capítulo. Denise questionou que a menina, aos doze anos, quando decidira ir a uma guerra, cobrir seus bastidores, não teria esse entendimento. E acha impossível “a menina vê o mundo por uma ótica muito além da sua capacidade intelectual”. Que aquilo era coisa da jornalista, hoje, já madura, capacitada, segundo Denise.
Pois bem, quem via a menina em cima de uma bicicleta, jamais saberia que a mesma adorava mexer em revistas, jornais e livros. Dos seus e de sua mãe, que tinha biblioteca. Seu mundo era aquele. Em casa, a menina não perdia tempo com nada que a fizesse acreditar que não seria jornalista.
Tal qual um jogador de futebol, que inicia cedo na profissão, geralmente ainda crianças, levados para os treinos por seus pais, a menina que queria ir à guerra, foi introduzida no jornalismo assim.
Portanto, a leitura, para a menina, era um treino.






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