A menina que queria ir à guerra III
A menina que queria ir à guerra foi criando um mundo em sua cabeça, onde o nunca não existia. Onde o impossível era sempre possível. Onde os sonhos levam qualquer pessoa aonde ela quer chegar. E onde fosse possível escolher a profissão. Sem sugestão ou imposição de ninguém.
Até que a mãe a incentivava, no sentido de trazer livros, jornais e revistas ditas sérias, como Realidade e, tempos depois, Interview e Veja. Eram revistas que mostravam a dura realidade do Brasil e do mundo. A menina gostava mesmo era das entrevistas, onde as pessoas podiam expor suas idéias, seus planos e, em especial, contavam suas histórias.
É! Ela gostava de ler e ouvir histórias, principalmente de pessoas já idosas. Ouvia atentamente aquelas histórias, vivências e testemunhos. Por diversas noites trocou as brincadeiras com os meninos de sua rua, para fazer companhia a dona Hildérica, uma senhora inteligente e bonita, de olhos claros, bem vivos, que contava suas aventuras de juventude, sobre a cidade de antigamente... e a menina viajava com aquelas idéias.
A menina se tornaria uma contadora de histórias, porém, durante sua puberdade e parte da adolescência, o país vivia a chamada ditadura. Uma forma de governo que controla as liberdades individuais e de imprensa. À medida que insistia em dizer que seria jornalista, nem de longe imaginava que aumentava a preocupação de sua mãe, tios e irmãos mais velhos, do que aquilo poderia representar, pois, como não havia liberdade de imprensa, jornalistas eram perseguidos e expulsos para outros países. O poder executivo prendia e torturava jornalistas e fechava jornais e qualquer publicação que não concordasse com esse regime.
Mesmo assim, a família tinha sob controle a opção profissional daquela menina, até o dia em que ela, lendo uma reportagem sobre uma guerra qualquer, num jornal qualquer, observou uma foto de uma mãe, em frente a sua casa em ruínas, encostada a uma porta. Seu filhinho sentado no chão, com cara de quem estava com fome, talvez não tivesse se alimentado até àquela hora. Ainda na mesma foto dava para ver um pouco a rua e outros prédios, semi-destruídos.
Por alguns instantes, a menina ficou a observar aquela imagem.
E não quis ler o texto. Ela, que tanta atenção dava para o que os jornais diziam, em especial os jornais da região Sudeste, cujo texto e vocabulário eram mais caprichados... Mas desta vez ela ignorou as palavras. Não quis saber o que diziam sobre aquela foto.
Continuou a fitar a foto e imaginar o que passava pela cabeça daquela mãe, com uma criança a alimentar. Foi então que teve uma idéia. Mais do que nunca estava resolvida a ser jornalista. Sim, agora uma repórter. Queria cobrir uma guerra. Não exatamente as zonas de conflitos. Onde havia concentração de tanques, homens armados e munidos de bombas.
A menina decidira ir a uma guerra para mostrar os bastidores. O que acontecia nos arredores de uma cidade sem paz. De repente passou um filme em sua mente: como é o dia-a-dia de uma dona-de-casa, cujo país está em guerra? Ela dorme? Quando dorme, como começa seu dia? Apronta a mesa? Serve o café e encaminha seus filhinhos para a escola?
E será que tem aula, numa cidade em guerra?
Boa pergunta.






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