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A menina que queria ir à guerra II

A menina que queria ir para a guerra, trocara os brinquedos e as brincadeiras pela leitura dos jornais e não queria saber de outra coisa. Boneca, tinha duas. Aliás, sua infância divide-se em duas fases: antes e depois dos dez anos de idade. Isso porque aos dez, mudou-se com a família. De casa e de bairro.

 

Na mudança, acha que perdeu uma das bonecas. Presente da madrinha, Nenzinha Falcão. Lembra muito bem dessa boneca. De calcinha e sapatinho brancos. De resto, era despida. A outra boneca era um protótipo de Wanderléa, cantora da Jovem Guarda. Deve ter sido presente da irmã mais velha, fã dos ídolos da Jovem Guarda. Lembra do vestido amarelo e cabelo enooooorme, loiro, da boneca Wanderléa. Nem sabe por que a ganhou. Era a década de 70 e curtia outro tipo de música. Mais precisamente adorava ouvir o palhaço Carequinha. Na época, não havia ainda Balão Mágico, Xuxa, Mara e outros ídolos infantis. Ídolos adolescentes? Nem pensar.

 

Não lembra exatamente qual o primeiro livro que leu. Mas gostava muito de ler aqueles textos publicados nos livros de Língua Portuguesa. Eram textos enxertados de obras literárias. Naquele tempo já observava num canto da página o nome do autor e o nome da obra, de onde foi tirado.

 

Foi num desses textos que leu pela primeira vez a palavra Maria Curie. Observou que se tratava de uma grande cientista. Ali, diante daquela pequena biografia, imaginou-se cientista também. Botou na cabeça que seria aquilo. Mas não faltou muito e descobriu a palavra mágica: jornalista. Por ironia do destino, sua primeira faculdade foi Ciências Sociais. Seria de qualquer forma, uma cientista. Mas também, jornalista.

 

Bem, a menina que naquele tempo não queria ir para a guerra, lia aqueles pequenos textos com tanta atenção... e se imaginava um dia escrever alguns deles. Mais do que isso. Prometera a si mesma que o faria. Promessa de criança. Mas nunca chegou a cumprir. Pelo menos, até agora. 

 

Nunca leu Monteiro Lobato, a não ser nesses pequenos textos, de uma obra e outra. Nunca leu a Coleção Vagalume, tantas vezes citadas nas muitas  comunidades literárias do Orkut. Nunca leu Ziraldo, mas o conheceu. Leu Capitães da Areia, de Jorge Amado e tomou um susto com a realidade das ruas. Ficou a pensar: como pode, crianças como aquelas, viverem em situação de rua, roubando, drogando-se e praticando sexo em tão pouca idade? Muitos anos depois, quando esteve com Jorge Amado e Zélia Gattai, nem quis tocar no assunto. Ele, uma figura fragilizada; ela um tipão de mulher. Um casal simpático e bem afinado.

 

Como fã, observou-os, apenas.

 

Nesse tempo, já desistira de ir à guerra. Ironicamente lembrou que Jorge Amado escrevera Tereza Batista, Cansada de Guerra, publicado em 1972. Ano em que, já queria ir a uma guerra. Fazer o que, é assunto para o próximo capítulo. Ou texto. Ou artigo. Ou post. Ou como queira.



Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 21h12
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A menina que queria ir à guerra

A menina que queria ir para a guerra. Este seria o nome do seu livro, quando decidisse escrever. Mas também poderia ser seu epitáfio. Observadora, lembra que antes dos dez anos de idade, decidiu que seria jornalista.

Foi numa brincadeira com primas da mesma faixa de idade: ‘Stop’ deveria ser a brincadeira. Uma espécie de questionário. Ainda hoje lembra a cena. Todo mundo sentado no chão. Lápis e papel na mão. E eis que surge a pergunta: profissão? Respondera: cientista. Havia lido algo num livro escolar sobre a vida de Marie Curie. Mas achou interessante mesmo foi a resposta de uma prima, Leda, que respondeu ‘jornalista’.

Não sabe por quê, mas aquela palavrinha soou-lhe mágica. Nunca mais a tirou da cabeça. A prima não chegou a exercer a profissão. Era coisa de criança mesmo. Mas a menina que ainda não queria ir para a guerra botou na cabeça que seria aquilo e pronto. Guardou em segredo e passou a encarar aquele desejo como meta e, intuitivamente, traçou um plano para alcançar seu sonho. Passou a ler mais, pois imaginou, um jornalista teria que saber escrever bem. Na verdade, naquele tempo, não sabia o que era ser jornalista, mas foi levando a coisa por intuição.

Um dia, viu, por acaso, um primo radialista, Canindeh, em atividade. Percebeu que os dedos dele deslizavam numa rapidez incrível no teclado de uma máquina datilográfica. Não havia computador na época, ainda. Ficou atônita e deslumbrada com aquilo tudo. Pronto! Aprendeu mais uma lição rumo a sua carreira. Para ser jornalista teria que aprender a teclar daquele jeito. Sem nem olhar para o teclado, como o primo. Agora ela sabia que, além de conhecer e saber bem a língua portuguesa, teria que saber datilografia para exercer a profissão. Então, trocou os brinquedos por leitura e mais leitura. De livros, jornais, enfim. Devorava tudo o que caía em suas mãos. Teve a sorte de a mãe viajar sempre para a capital. E esta trazia jornais. Da capital e do Rio de Janeiro. O Globo. Que ela lia de capa a capa. E se deliciava com a parte visual e a cobertura do noticiário nacional e internacional. Diferente dos jornais locais.

Mas nesse tempo, a menina que queria ir para a guerra, nem sabia o que a aguardava. Ela sequer sabia que havia guerras. A gente continua essa história. Com h.



Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 20h34
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