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A menina que queria ir à guerra VIII
O que a menina mais admira no universo é a comunicação. É a capacidade que algumas pessoas têm de se comunicar com os outros, com o mundo.
Ela lembra que, bem antes de ir à escola, começou a pedir à mãe para lhe ensinar as primeiras letras. Aliás, a imagem que lhe vem à mente em sua primeira infância, é da mãe chegando do trabalho para o almoço, como quem está sempre apressada para um outro expediente à tarde. Recorda-se que andava dentro de casa, atrás da mãe, com um lápis e papel na mão. Porém, ela nunca tinha tempo de lhe ensinar.
A menina ficava vendo os irmãos mais velhos saindo para a escola. Não era sua vez ainda, mas queria aprender a ler logo.
Aprendeu as primeiras letras com uma tia, Chiquinha, professora de escola pública. Nas horas de folga, a tia Chiquinha, de quem era vizinha, gostava de costurar. Então, ficava sentada à máquina de costura, que funcionava a pedal.
A menina aproveitava quando a tia estava na máquina e ficava em um banquinho, do lado esquerdo dela, com uma cartilha do ABC à mão. A tia apontava cada letra e chamava pelo nome: A – B – C – D – E, e por ai vai. Essa foi a primeira fase da aprendizagem. Com o tempo, a tia sempre costurando, apontava com um dedo e perguntava que letra era aquela. Se a menina acertasse, tudo bem. Do contrário, algum castigo físico. Às vezes, um beliscão. De outras vezes, um bolinho na mão.
Assim, de beliscão em beliscão. De bolinho em bolinho, que ela nem sentia, a menina foi aprendendo a ler. A tia deve ter ficado satisfeita, porque nas datas comemorativas, passou a levá-la na escola onde lecionava. A menina gostava, porque era um dia de festa, que começava bem antes de chegarem até a escola. Ficava observando a tia preparar lanches e suco. Ajudava-a, levando alguma sacola, a pé.
Mas o que o fato de a menina aprender a ler antes de freqüentar uma escola tem a ver com o início deste capítulo, que fala sobre comunicação? Muito simples. Depois que a menina aprendeu a ler, abriu-se um novo mundo para ela. Passou a ler tudo o que via à sua frente. Letreiros de lojas, por exemplo. Ela ficava deslumbrada. Tanta coisa para ler. Descobriu os livros. Com gravuras, desenhos. Letras minúsculas e maiúsculas. Coloridas também.
Outra coisa lhe chamou a atenção. Agora percebia que os carros se comunicavam uns com os outros. Quando um motorista ia entrar numa esquina, acendia-se uma luzinha. Direita e esquerda. Observava essas e outras maneiras de comunicação. Percebeu que é assim que a coisa acontece. Que havia certa disciplina.
Hoje, a jornalista é consciente de que, quem sabe se comunicar, leva vantagem tanto do lado pessoal, como profissionalmente. Quem sabe se comunicar, consegue tudo o que quiser. Saberá tirar proveito de suas virtudes. Sabe que quando os desafios surgem, a capacidade de superá-los aumenta com algumas estratégias. Aliás, o bom comunicador é um bom estrategista.
Mas nem sempre a menina foi uma boa comunicadora. A primeira vez que subiu num palco para se comunicar, levou uma surra de vaia. Um bom assunto para o próximo capítulo.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 10h47
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A menina que queria ir à guerra VII
No ano que entrou para a escola de datilografia, outro fato marcou a vida da menina que queria ir à guerra. Ela estava na capital, com sua mãe, que havia ido a trabalho. A menina gostava da capital porque ali podia ir a uma banca de jornal comprar O Globo. Lá, em sua terra, ela o lia com dias de atraso.
Na capital sua mãe se hospedava próximo de bancas de jornais. Havia uma praça, onde podia conhecer e fazer amizade com outras pessoas de sua idade, da capital. Lugar que foi tornando-se bastante familiar, devido a tantas viagens acompanhando a mãe.
Alguns anos depois, já morando na capital paulista, mais parecia moça de capital. Adaptara facilmente, sem nenhum choque cultural e sem enfrentar nenhuma barreira social.
Numa das muitas viagens à capital, pegou uma edição de O Globo e a manchete era algo triste, o seqüestro do neto de um milionário no exterior: Seu avô era magnata do petróleo e, considerado em sua época o homem mais rico do mundo. Mesmo assim ele negou pagar o resgate e só mudou de idéia quando soube que uma orelha de seu neto havia sido enviada para um jornal.
A menina não entendia como pode alguém tirar um adolescente de sua família, abruptamente, para extrair dinheiro, em troca de sua liberdade. Na verdade, aquela notícia foi um choque.
A partir deste episódio tomou consciência de que o mundo pode ser mau. Apesar de querer cobrir uma guerra, não tinha dimensão do quanto o homem podia ser tão ruim e egoísta. Aquele seqüestro serviu de parâmetro para a menina saber que há muitas guerras em muitos lugares. Provocando vítimas não somente em grande escala, mas em pequenas também.
Leu e releu aquela reportagem por diversas vezes para entendê-la melhor. Foi a partir deste episódio que passou a ler as notícias de jornal no mínimo duas vezes. Cada matéria. Primeiro, ela lia no intuito de entender do que o assunto tratava. Uma vez que matava a curiosidade das informações, fazia uma segunda leitura, para observar como aquela notícia foi passada para o leitor. Ou seja, ela observava, prestando bem atenção no vocabulário, nos parágrafos, citações, fontes, enfim, na maneira que o jornalista descrevia o assunto.
Até hoje a jornalista acredita que aquela mania foi sua grande escola para aprender a escrever textos. Hoje, de vez em quando, pratica esse exercício, pois valeu muito como terceira lição rumo à sua carreira de jornalista. Se o leitor lembra, a primeira foi ler bastante, tudo o que caía em suas mãos; depois aprender a datilografar e em terceiro, ler e reler cada notícia, sob dois ângulos: tomar conhecimento do assunto e de que forma ele foi passado para o leitor.
Escrever com estilo é uma grande sacada. Pode fazer a diferença na carreira de uma pessoa, seja qual for a profissão que escolher. No jornalismo, então, é essencial.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 16h15
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A menina que queria ir à guerra VI
O diploma de datilografia seria o próximo passo da menina que queria ir à guerra. Isso com treze anos de idade. Como conseguiria? Só Deus e alguns pouquíssimos, saberiam.
Na verdade, jamais passara pela cabeça da jornalista um dia escrever suas memórias. Logo ela, que lê tantas biografias? O seu gênero preferido. Sempre gostou de saber a respeito de experiências de vida.
Pois, então! A idéia de escrever as experiências profissionais nasceu de um reencontro, trinta anos depois, com seu mestre em datilografia, Rogério. Em sua cidade, de férias, visitava o museu com a mãe, quando deu de cara com ele. Que relembrou a artimanha que fizera para conseguir o tal diploma.
Seguinte: como a família decidira que a menina não faria jornalismo, ela então, por conta e risco próprios, resolveu bater à porta da Dat Rápida, escola de datilografia de Rogério. Lá, informou-se sobre a duração e o custo do curso.
Mas foi no museu que a ficha caiu. Como pode ter esquecido aquele detalhe tão importante em sua vida? Um grande passo para a menina que queria ser jornalista. Mas que ficara escondido em algum lugar de sua memória. E, afinal de contas, como conseguiu aquele diploma?
Bem, Rogério perguntou a dona Inalda, se achava que teria valido a pena a filha ter conseguido o diploma de datilografia, agora que estava realizada como jornalista. Não sem antes, lembrá-la que a filha precisou vender balas no seu colégio, para pagar as mensalidades.
“Mas como assim?”, dirá algum web leitor. Inclusive, Denise, a amiga de infância que, sequer sabia que ela desejava ser jornalista.
Deixa explicar. A menina que queria ir à guerra, não é de nenhuma família abastada. Fora criada com os sete irmãos, sem nenhuma ajuda financeira do pai. A mãe, uma educadora reconhecida na cidade, tinha um colégio particular e ocupava uma alta função na secretaria de educação do estado. A menina nem consultou se a mãe podia bancar as mensalidades, pois cedo tomou a iniciativa e antecipou-se o quanto pôde, preparando-se para ser a profissional que se tornaria. E bancou o primeiro diploma. Com seu primeiro capital. Foi um investimento e tanto.
Enquanto ouvia Rogério, agora de cabelos grisalhos e barba branca, a jornalista se deu conta que era dona de uma bela história de sucesso e que isso talvez rendesse um livro de memórias, onde relataria o passo a passo, rumo à carreira.
E não é que iniciou esse projeto uns cinco anos depois? Exatamente, quando fazia vinte anos que ingressara profissionalmente na carreira que tanto desejava.
Não para se vangloriar. Apenas para reforçar que adora fazer o impossível. Porque o possível todo mundo já faz. E para estimular a quem tem dúvidas se deve tocar à frente o sonho de se realizar numa profissão qualquer.
Quem sabe, alguém após essa leitura, possa dizer a si mesmo:
- Pôxa! Se ela chegou lá, também posso!
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 14h59
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A Menina que Queria ir à Guerra V
Neste capítulo a menina deveria ter treze anos de idade, porém algo lhe aconteceu, que a fez mudar de idéia. Isso porque entre o último capítulo e este, participou de um seminário de marketing político, no qual um dos palestrantes havia sido seu vizinho, na infância. À época, ele era juiz na cidade, pai de dois amiguinhos da menina: Magnus e Liane.
Pois bem, ele agora retornara à cidade, na condição de ministro do Tribunal Superior Eleitoral. Morava em Brasília. Mais de trinta anos depois foi com prazer que a menina apresentou-se e deu-lhes as boas vindas. Contou que jamais havia esquecido aquela família que lhe marcara tanto e que acompanhava desde então, sua trajetória profissional através da imprensa.
Mas por que ela resolveu contar isso? Porque acredita que o ser humano é muito influenciável. Por homens e livros. Logo ela, que não teve um pai por perto, pois este separara de sua mãe, quando tinha apenas dois anos de idade. Seria natural que observasse algumas figuras masculinas, que pudessem servir de exemplo e tudo o que seu pai não fora para ela e seus sete irmãos.
E um desses homens foi exatamente o hoje ministro, doutor Delgado, que deixara de ver quando tinha doze anos. Mas naquela época, observava que ele gostava de ler. E como lia aquele homem, sempre rodeado de livros em sua casa espaçosa. Essa imagem ficou de lembrança. Ele mostrava ser uma pessoa muito profissional, estudioso, do tipo que levava a sério tudo o que fazia, ou seja, estava cuidando do seu futuro profissional. Quem sabe, já tinha em mente, chegar aonde chegou. Hoje, é uma das maiores reservas morais deste país.
Agora lembra que lera que um país se faz com homens e livros. Monteiro Lobato que disse. No que ela concorda e muuuuuuuuuito. Aconteceu com ela. Foi observando homens éticos, trabalhadores, estudiosos e dedicados em seus afazeres, que achou que poderia um dia chegar lá também.
Para quem acha que a menina que queria ir à guerra, naquela idade era bobinha, fique sabendo que já dizia a si mesma, que doutor Delgado seria alguém que iria longe.
Após a palestra, fez algo que abomina: posou para uma foto com o ministro. Quem a conhece há muito, sabe que ela não é dessas coisas.
Mas isso é assunto para daqui a alguns capítulos.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 23h24
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A menina que queria ir à guerra IV
A menina que queria ir à guerra nunca gostou de ler ficção. Até hoje. Vai ver, por isso jamais leu Monteiro Lobato, Ziraldo e até Maurício de Sousa. Anos depois, adulta, em São Paulo, soube de Ruth Rocha, autora de literatura infantil. Não ouvira falar nela, até ser apresentada por uma amiga, Mara.
Aliás, nem de gibi gostava. Guarda até hoje o Manual do Peninha, publicado há algumas décadas. Foi seu primeiro livro sobre jornalismo. Peninha havia sido designado pelo Tio Patinhas, para ser repórter de seu jornal, A Patada.
Trinta anos após ter comprado o Manual do Peninha, tantas vezes o consultava. Numa linguagem bem acessível, explica tudo sobre jornalismo. Agora resolveu dar uma olhada. Em sua biblioteca, estava em meio a outros livros da área de comunicação. Releu que Tio Patinhas havia escolhido Peninha para repórter, porque o mesmo tinha algumas qualidades. Peninha era otimista, bem intencionado, topava qualquer parada, não se deixava abater diante das dificuldades, tinha um gênio extrovertido e, por ser cheio de iniciativa e imaginação, poderia fazer reportagens difíceis para o jornal.
Por algum motivo, guardou aquele manual. Quem sabe, para manter acesa a chama de ser jornalista um dia. Não dividia essas coisas com os amigos. Nem mesmo com Denise, a amiga de sala de aula, no colégio de freiras. Denise era, naquele tempo, a melhor amiga. Para andar de bicicleta e cometer outras aventuras no colégio, para desespero das freiras.
Na adolescência, perdeu a amiga. Que mudou com a família para outro estado. Nem deu tempo para dizer que tinha um sonho. Trinta anos depois, eis que encontra a amiga, pela internet. Havia casado, descasado, tinha filhos. Ao contrário da jornalista, que dedicou-se às suas realizações e compromissos profissionais.
Vinte anos após estrear profissionalmente na profissão que tanto queria, resolveu escrever suas memórias e experiências jornalísticas. Primeiro, para contribuir na escolha da profissão de crianças e adolescentes, ainda indecisos. Segundo, para contar que valeu a pena. Resolveu postar isso num blog.
Denise, então participou do blog. E comentou, baseado no que lera, que a menina que queria ir à guerra tinha muita personalidade e um mundo interior rico e particular e, que crianças assim, são hiperativas, no que a jornalista não concorda. Talvez tivesse sido uma criança ativa, mas isso ela explicará em outro capítulo. Denise questionou que a menina, aos doze anos, quando decidira ir a uma guerra, cobrir seus bastidores, não teria esse entendimento. E acha impossível “a menina vê o mundo por uma ótica muito além da sua capacidade intelectual”. Que aquilo era coisa da jornalista, hoje, já madura, capacitada, segundo Denise.
Pois bem, quem via a menina em cima de uma bicicleta, jamais saberia que a mesma adorava mexer em revistas, jornais e livros. Dos seus e de sua mãe, que tinha biblioteca. Seu mundo era aquele. Em casa, a menina não perdia tempo com nada que a fizesse acreditar que não seria jornalista.
Tal qual um jogador de futebol, que inicia cedo na profissão, geralmente ainda crianças, levados para os treinos por seus pais, a menina que queria ir à guerra, foi introduzida no jornalismo assim.
Portanto, a leitura, para a menina, era um treino.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 00h58
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A menina que queria ir à guerra III
A menina que queria ir à guerra foi criando um mundo em sua cabeça, onde o nunca não existia. Onde o impossível era sempre possível. Onde os sonhos levam qualquer pessoa aonde ela quer chegar. E onde fosse possível escolher a profissão. Sem sugestão ou imposição de ninguém.
Até que a mãe a incentivava, no sentido de trazer livros, jornais e revistas ditas sérias, como Realidade e, tempos depois, Interview e Veja. Eram revistas que mostravam a dura realidade do Brasil e do mundo. A menina gostava mesmo era das entrevistas, onde as pessoas podiam expor suas idéias, seus planos e, em especial, contavam suas histórias.
É! Ela gostava de ler e ouvir histórias, principalmente de pessoas já idosas. Ouvia atentamente aquelas histórias, vivências e testemunhos. Por diversas noites trocou as brincadeiras com os meninos de sua rua, para fazer companhia a dona Hildérica, uma senhora inteligente e bonita, de olhos claros, bem vivos, que contava suas aventuras de juventude, sobre a cidade de antigamente... e a menina viajava com aquelas idéias.
A menina se tornaria uma contadora de histórias, porém, durante sua puberdade e parte da adolescência, o país vivia a chamada ditadura. Uma forma de governo que controla as liberdades individuais e de imprensa. À medida que insistia em dizer que seria jornalista, nem de longe imaginava que aumentava a preocupação de sua mãe, tios e irmãos mais velhos, do que aquilo poderia representar, pois, como não havia liberdade de imprensa, jornalistas eram perseguidos e expulsos para outros países. O poder executivo prendia e torturava jornalistas e fechava jornais e qualquer publicação que não concordasse com esse regime.
Mesmo assim, a família tinha sob controle a opção profissional daquela menina, até o dia em que ela, lendo uma reportagem sobre uma guerra qualquer, num jornal qualquer, observou uma foto de uma mãe, em frente a sua casa em ruínas, encostada a uma porta. Seu filhinho sentado no chão, com cara de quem estava com fome, talvez não tivesse se alimentado até àquela hora. Ainda na mesma foto dava para ver um pouco a rua e outros prédios, semi-destruídos.
Por alguns instantes, a menina ficou a observar aquela imagem.
E não quis ler o texto. Ela, que tanta atenção dava para o que os jornais diziam, em especial os jornais da região Sudeste, cujo texto e vocabulário eram mais caprichados... Mas desta vez ela ignorou as palavras. Não quis saber o que diziam sobre aquela foto.
Continuou a fitar a foto e imaginar o que passava pela cabeça daquela mãe, com uma criança a alimentar. Foi então que teve uma idéia. Mais do que nunca estava resolvida a ser jornalista. Sim, agora uma repórter. Queria cobrir uma guerra. Não exatamente as zonas de conflitos. Onde havia concentração de tanques, homens armados e munidos de bombas.
A menina decidira ir a uma guerra para mostrar os bastidores. O que acontecia nos arredores de uma cidade sem paz. De repente passou um filme em sua mente: como é o dia-a-dia de uma dona-de-casa, cujo país está em guerra? Ela dorme? Quando dorme, como começa seu dia? Apronta a mesa? Serve o café e encaminha seus filhinhos para a escola?
E será que tem aula, numa cidade em guerra?
Boa pergunta.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 22h42
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A menina que queria ir à guerra II
A menina que queria ir para a guerra, trocara os brinquedos e as brincadeiras pela leitura dos jornais e não queria saber de outra coisa. Boneca, tinha duas. Aliás, sua infância divide-se em duas fases: antes e depois dos dez anos de idade. Isso porque aos dez, mudou-se com a família. De casa e de bairro. Na mudança, acha que perdeu uma das bonecas. Presente da madrinha, Nenzinha Falcão. Lembra muito bem dessa boneca. De calcinha e sapatinho brancos. De resto, era despida. A outra boneca era um protótipo de Wanderléa, cantora da Jovem Guarda. Deve ter sido presente da irmã mais velha, fã dos ídolos da Jovem Guarda. Lembra do vestido amarelo e cabelo enooooorme, loiro, da boneca Wanderléa. Nem sabe por que a ganhou. Era a década de 70 e curtia outro tipo de música. Mais precisamente adorava ouvir o palhaço Carequinha. Na época, não havia ainda Balão Mágico, Xuxa, Mara e outros ídolos infantis. Ídolos adolescentes? Nem pensar. Não lembra exatamente qual o primeiro livro que leu. Mas gostava muito de ler aqueles textos publicados nos livros de Língua Portuguesa. Eram textos enxertados de obras literárias. Naquele tempo já observava num canto da página o nome do autor e o nome da obra, de onde foi tirado. Foi num desses textos que leu pela primeira vez a palavra Maria Curie. Observou que se tratava de uma grande cientista. Ali, diante daquela pequena biografia, imaginou-se cientista também. Botou na cabeça que seria aquilo. Mas não faltou muito e descobriu a palavra mágica: jornalista. Por ironia do destino, sua primeira faculdade foi Ciências Sociais. Seria de qualquer forma, uma cientista. Mas também, jornalista. Bem, a menina que naquele tempo não queria ir para a guerra, lia aqueles pequenos textos com tanta atenção... e se imaginava um dia escrever alguns deles. Mais do que isso. Prometera a si mesma que o faria. Promessa de criança. Mas nunca chegou a cumprir. Pelo menos, até agora. Nunca leu Monteiro Lobato, a não ser nesses pequenos textos, de uma obra e outra. Nunca leu a Coleção Vagalume, tantas vezes citadas nas muitas comunidades literárias do Orkut. Nunca leu Ziraldo, mas o conheceu. Leu Capitães da Areia, de Jorge Amado e tomou um susto com a realidade das ruas. Ficou a pensar: como pode, crianças como aquelas, viverem em situação de rua, roubando, drogando-se e praticando sexo em tão pouca idade? Muitos anos depois, quando esteve com Jorge Amado e Zélia Gattai, nem quis tocar no assunto. Ele, uma figura fragilizada; ela um tipão de mulher. Um casal simpático e bem afinado. Como fã, observou-os, apenas. Nesse tempo, já desistira de ir à guerra. Ironicamente lembrou que Jorge Amado escrevera Tereza Batista, Cansada de Guerra, publicado em 1972. Ano em que, já queria ir a uma guerra. Fazer o que, é assunto para o próximo capítulo. Ou texto. Ou artigo. Ou post. Ou como queira.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 21h12
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A menina que queria ir à guerra
A menina que queria ir para a guerra. Este seria o nome do seu livro, quando decidisse escrever. Mas também poderia ser seu epitáfio. Observadora, lembra que antes dos dez anos de idade, decidiu que seria jornalista.
Foi numa brincadeira com primas da mesma faixa de idade: ‘Stop’ deveria ser a brincadeira. Uma espécie de questionário. Ainda hoje lembra a cena. Todo mundo sentado no chão. Lápis e papel na mão. E eis que surge a pergunta: profissão? Respondera: cientista. Havia lido algo num livro escolar sobre a vida de Marie Curie. Mas achou interessante mesmo foi a resposta de uma prima, Leda, que respondeu ‘jornalista’.
Não sabe por quê, mas aquela palavrinha soou-lhe mágica. Nunca mais a tirou da cabeça. A prima não chegou a exercer a profissão. Era coisa de criança mesmo. Mas a menina que ainda não queria ir para a guerra botou na cabeça que seria aquilo e pronto. Guardou em segredo e passou a encarar aquele desejo como meta e, intuitivamente, traçou um plano para alcançar seu sonho. Passou a ler mais, pois imaginou, um jornalista teria que saber escrever bem. Na verdade, naquele tempo, não sabia o que era ser jornalista, mas foi levando a coisa por intuição.
Um dia, viu, por acaso, um primo radialista, Canindeh, em atividade. Percebeu que os dedos dele deslizavam numa rapidez incrível no teclado de uma máquina datilográfica. Não havia computador na época, ainda. Ficou atônita e deslumbrada com aquilo tudo. Pronto! Aprendeu mais uma lição rumo a sua carreira. Para ser jornalista teria que aprender a teclar daquele jeito. Sem nem olhar para o teclado, como o primo. Agora ela sabia que, além de conhecer e saber bem a língua portuguesa, teria que saber datilografia para exercer a profissão. Então, trocou os brinquedos por leitura e mais leitura. De livros, jornais, enfim. Devorava tudo o que caía em suas mãos. Teve a sorte de a mãe viajar sempre para a capital. E esta trazia jornais. Da capital e do Rio de Janeiro. O Globo. Que ela lia de capa a capa. E se deliciava com a parte visual e a cobertura do noticiário nacional e internacional. Diferente dos jornais locais.
Mas nesse tempo, a menina que queria ir para a guerra, nem sabia o que a aguardava. Ela sequer sabia que havia guerras. A gente continua essa história. Com h.
Categoria: A menina que queria ir à guerra
Escrito por Lúcia Rocha às 20h34
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